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Crise reduz emprego entre jovens e pode afetar futuras gerações em todo o mundo

Uma das consequências mais cruéis da crise econômica mundial, que atinge severamente os países europeus desde 2009, é o aumento do desemprego entre os jovens, que já tem desvantagem natural no mercado de trabalho pela falta de experiência. Na Espanha e na Grécia, por exemplo, os índices de desocupação chegam a 50% entre as pessoas de 15 a 24 anos. Estes números podem ser ainda maiores, já que aqueles que desistiram de procurar emprego não entram na conta.

O desemprego entre estes jovens tem elevado os riscos do surgimento de uma “geração perdida” com milhares de recém-formados fora do mercado de trabalho, segundo o estudo Tendências Mundiais de Emprego da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O documento aponta que a proporção de jovens desempregados no mundo aumentou para 12,6% em 2012 e estima que 73,8 milhões deles estão sem trabalho.

Uma das maiores preocupações é a transmissão deste cenário para as próximas gerações, que devem herdar condições piores de vida, perpetuando um ciclo de desigualdade social que pode se intensificar nos próximos anos. Para o economista Tiago Oliveira da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a crise é fato determinante para o aumento na desigualdade social. Porém, não será a única razão.

“Esta crise foi se fazendo na década de 70, com adoção de medidas neoliberais, como desregulamentação do mercado de trabalho e financeiro que foi gerando um movimento que acabou na crise”, analisa Oliveira. O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Claudio Salm, reforça que as condições determinantes para o aumento da desigualdade social vêm daquela época (70). “A desigualdade nos Estados Unidos, por exemplo, aumentou brutalmente nos anos de prosperidade pré-crise”, analisou.

Círculo vicioso

A tendência, caso as medidas contra a crise não funcionem, é de piora ainda maior no mercado de trabalho, principalmente para os jovens. “A qualificação que eles tiveram ao longo de sua vida acaba se deteriorando à medida que não conseguem emprego por muito tempo. Isto leva a um círculo vicioso em que a defasagem reforça ainda mais as dificuldades para a inserção no mercado”, explica Oliveira.

Com a permanência deste cenário, a probabilidade de que estes jovens desistam de procurar emprego e entrem nas estatísticas dos desalentados é grande. Dos cerca de 74 milhões de jovens desempregados, 1/3 fica mais de 6 meses sem ocupação. O tempo é suficiente para levar estas pessoas a desistência, segundo a OIT.

Porém, para Salm a situação não deverá chegar a este ponto. “Eu espero que o pior já tenha passado. No caso da Europa, estamos falando de um continente muito rico ainda, existem soluções”, analisa.

Empobrecimento

A deterioração do mercado de trabalho, promovida pela crise, pode levar ao empobrecimento de diversos países, segundo os especialistas. “Certamente os países da periferia européia, principalmente Grécia, Portugal e Espanha, já estão empobrecendo” afirma Salm. “Há também o risco de a crise nas velhas economias centrais afetar todo mundo”, completa.

“As pessoas, desestimulas a buscar trabalho, passam a sobreviver de outras formas: com transferências governamentais, bicos, iniciativas de subsistência como trabalho rural ou mesmo através de formas ilícitas”, afirma Lúcia Garcia, supervisora do Sistema de Pesquisa em Emprego e Desemprego (PED) do Dieese.

A situação de desalento não só retira os jovens do mercado de trabalho, como frequentemente desestimula o aperfeiçoamento através do aumento da escolaridade, por exemplo. “Há a perda da qualificação através da experiência, através do desenvolvimento de novas capacidades, o famoso “aprender fazendo”. Mas frequentemente estes jovens desempregados não estão nem trabalhando, nem estudando”, afirma Lúcia.

Sem educação e emprego por muito tempo, a probabilidade é de que as gerações futuras também sejam afetadas fortemente pela crise passada, de 2009. A solução desta questão é fundamental para que os filhos dos jovens de hoje possam contemplar um futuro mais sólido. “Quanto mais longínquas as soluções, mais tempo os efeitos desta crise durarão, podendo atingir 2 ou 3 gerações futuras”, conclui a supervisora.